Infecção Urinária na Mulher

A infecção do trato urinário, conhecida como ITU, é muito comum no sexo feminino independente da idade. Estima-se que 50% de todas as mulheres terão ao menos um evento durante a vida. Quando ocorre até três vezes ao ano denomina-se ITU recorrente e a estimativa é que 5% das pacientes sofram desse mal. Ela acomete desde recém nascidos até idosas, sendo que para cada faixa etária as causas e abordagens são diferentes.  Além disso, em gestantes ela apresenta um risco maior tanto para a mãe quanto para o bebê.

Os agentes causadores são bactérias que habitam a região genital, proveniente do sistema digestivo, vagina ou pele, sendo a Escherichia colia principal causadora. Essas bactérias entram pela a uretra e atingem a bexiga onde penetram sua parede causando a cistite. Caso o corpo não consiga combatê-la ou um tratamento eficiente não seja instituído, sua proliferação levará a ascensão da infecção pelo ureter até o rim. O acometimento renal, chamado pielonefrite, é sua forma mais grave com potencial para desenvolvimento de abscessos e sepse.

Como saber se estou com infecção urinária?

Os sintomas mais comuns das ITU são:

  • Dor ou ardência ao urinar;
  • Aumento da frequência urinária;
  • Sensação que não esvaziou completamente a bexiga;
  • Urgência para urinar, às vezes levando até a incontinência;
  • Alteração do cheiro e turvação da urina;
  • Sangramento na urina que, apesar de assustar, não tem relação com a gravidade da infecção;
  • Dor lombar (nas costas) baixa;
  • Dor lombar mais alta, febre, calafrios e prostração são sintomas de pielonefrite, indicam uma infecção mais grave e que deve ser avaliada preferencialmente em ambiente hospitalar.

Entretanto ela algumas vezes ela surge sem sintomas e é detectada apenas em exames de urina realizados rotineiramente. Nesses casos ela é chamada de Bacteriúria Assintomática (“bactéria na urina sem sintomas”) e deverá ser tratada apenas em gestantes ou antes de uma cirurgia do trato urinário. Por isso, sempre se realiza pelo menos uma urocultura no início da gestação e do terceiro trimestre.

Outro aspecto importante é a presença de corrimento vaginal associado. Ele pode indicar infecções vaginais causadas por outros agentes bem diferentes dos da ITU e que necessitarão de tratamento diferente.

Além disso, uma coloração mais amarelada da urina e odor fétido pode indicar uma simples desidratação, principalmente em dias de calor e após atividades físicas. Nesses casos, aumente a ingestão de bebidas não alcoólicas e observe se terá alguma modificação.

Como é feito o diagnóstico de uma infecção urinária?

O diagnóstico é na maioria das vezes clínico e o tratamento poderá ser iniciado até mesmo sem a realização de exames nos casos não complicados, não recorrentes e em paciente não estejam grávidas. A urocultura com antibiograma é o principal exame, pois identificará a bactéria e o perfil de susceptibilidade aos antibióticos, mas infelizmente seu resultado é liberado apenas após alguns dias. Na maioria das vezes serão também solicitados os exames de urina rotina e a bacterioscopia com gram. Eles tem o resultado mais rápido e ajudam na diferenciação com outras doenças. Se apresentar sintomas e sinais de gravidade, outros exames poderão ser solicitados e uma internação hospitalar talvez seja necessária.

E o tratamento? O que devo tomar?

O tratamento das ITU é baseado no aumento da hidratação, alívio dos sintomas com analgésicos gerais ou específicos para o sistema urinário e antibióticos. Nas cistites não complicadas as opções recomendadas atualmente para todas as mulheres, inclusive gestantes, são os medicamentos que apresentam uma eficácia muito boa, bem tolerável, com menor taxa de resistência bacteriana e de curta duração.

Os principais agentes são a fosfomicina, nitrofurantoína e como segunda opção os betalactâmicos, como a amoxicilina com clavulanato, cefalexina e a cefuroxima. Medicamentos como a sulfa e as quinolonas, por exemplo, norfloxacin e ciprofloxacin, são cada vez menos usados nos casos simples devido aos efeitos colaterais e aumento da resistência bacteriana a esses compostos.

Já os casos graves podem ser inicialmente manejados com antibióticos de largo espectro e depois trocado para outro conforme o resultado do exame de urocultura. Hoje em dia, frequentemente, nas pielonefrites iniciais é possível iniciar o tratamento no pronto socorro e continuar em casa sem a necessidade de uma internação. Nas gestantes, devido a um risco maior a permanência hospitalar costuma ser a regra.

Como posso prevenir a infecção urinária?

Como a uretra feminina é curta e localizada próxima ao trato digestivo e genital, é comum a entrada de bactérias. Entretanto, não necessariamente elas causarão infecção. Para a bactéria se desenvolver será necessário uma combinação de fatores relacionados com a imunidade da pessoa e a virulência, ou agressividade, desses microrganismos. Assim a prevenção procura “melhorar” a imunidade e reduzir a contaminação da bexiga.

São recomendadas na prevenção das ITU:

  • Higiene adequada da região genital;
  • Não usar ducha higiênica para limpeza vulvar ou vaginal, a limpeza excessiva causa alteração da flora vaginal normal, como as leveduras, e predispõe ao desenvolvimento de bactérias patogênicas;
  • Limpeza no sentido anterior para posterior;
  • Não postergar a micção por longos períodos;
  • Tratar a constipação intestinal;
  • Ingerir líquidos abundantemente (o ideal é manter a urina com uma coloração amarela bem clara ou mais transparente);
  • Evitar traumas na região genital, seja durante cuidados íntimos como depilação ou durante o sexo;
  • Urinar logo após a relação sexual;
  • Não usar roupas ou peças íntimas oclusivas que evitem a transpiração da região genital;
  • Hábito de vida saudável como melhora do sono, redução do estresse e alimentação adequada.

A ITU não é considerada uma infecção sexualmente transmissível, pois essas bactérias fazem parte da flora corporal de todas as mulheres, mas está muito relacionada com a atividade sexual. Uma frequência sexual aumentada e o uso de dispositivos e loções íntimas podem predispor a sua ocorrência. Assim dizemos que não se “pega” ITU “do(a)” parceiro(a), mas “com” ele(a).

E as infecções que recorrem com frequência?

Após o tratamento de uma ITU é possível que ela se repita em pouco tempo. Quando não há melhora após o terceiro dia ou os sintomas recorrem dentro de quatro semanas, é orientado colher uma urocultura e trocar o medicamento. Isso muitas vezes é causada por resistência da bactéria àquela substância.

Uma vez curada é também possível haver um novo episódio em poucos meses. Consideramos uma ITU recorrente quando ocorre três ou mais vezes por ano. Nesses casos será necessária uma avaliação especializada mais detalhada para entender o funcionamento de todo o sistema urogenital, identificar fatores de riscos e instituir tratamentos específicos e direcionados a partir dos resultados.

Existem outras formas de prevenção da recorrência como uso de antibiótico continuamente em baixa dose, hormônios vaginais, imunomoduladores e suplementos alimentares. Eles devem ser discutidos com um(a) médico(a) para escolher o que melhor encaixa ao perfil da paciente. Caso uma gestante apresente um segundo episódio de infecção urinária, a profilaxia com antibióticos está indicada até o parto.

Dr. Leonardo Nogueira Mendes, médico urologista da Maternidade & Hospital Octaviano Neves.