Uso seguro de medicamentos na gestação

A utilização de medicamentos traz sempre a reflexão sobre seu risco-benefício, uma vez que existe alta probabilidade de danos associados. Quando se trata do uso de medicamentos na gestação, essa probabilidade de risco é ainda maior, considerando o envolvimento da gestante e do feto. A gestação é considerada situação de alto risco e o uso de medicamentos nessa etapa de vida deve ser avaliado com cautela, considerando a segurança da mulher e do feto, uma vez que pode estar associado à ocorrência de aborto, prematuridade, morte neonatal, anormalidades fetais, entre outros.

Os medicamentos tomados pela gestante chegam ao feto, sobretudo, através da placenta, o mesmo trajeto percorrido pelo oxigênio e pelos nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento do feto. Os medicamentos que a gestante toma durante a gestação podem afetar o feto de várias formas:

  • Eles podem agir diretamente sobre o feto, provocando danos, desenvolvimento anômalo (dando origem a defeitos congênitos) ou morte.
  • Eles podem afetar a função da placenta, normalmente fazendo os vasos sanguíneos estreitarem (constrição), reduzindo assim o suprimento de oxigênio e nutrientes ao feto vindos da mãe. Às vezes, o resultado é um bebê com baixo peso e subdesenvolvido.
  • Eles podem afetar indiretamente o feto, ao fazer com que os músculos do útero se contraiam com força, lesionando indiretamente o feto ao reduzir o fornecimento de sangue ou provocando trabalho de parto prematuro.

Medicamentos para reduzir a pressão arterial alta (anti-hipertensivos) podem ser necessários para gestantes que tenham hipertensão arterial antes da gravidez ou surgida durante a gestação. Tanto um como o outro tipo de hipertensão arterial aumenta o risco de haver problemas para a mulher (por exemplo, pré-eclâmpsia) e para o feto. Vários tipos de anti-hipertensivos, como inibidores da enzima de conversão da angiotensina (captopril, enalapril) e diuréticos à base de tiazida (hidroclorotiazida), geralmente não são administrados a gestantes. Esses medicamentos podem causar problemas graves no feto, como danos ao rim, crescimento inadequado antes do nascimento (restrição do crescimento) e defeitos congênitos. A espironolactona, em geral, também não é administrada em gestantes, ele pode causar o desenvolvimento de características femininas (feminização) em um feto masculino. Por isso, é necessário monitorar cuidadosamente as gestantes que precisam tomar tais medicamentos.

Antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSS), como a paroxetina, costumam ser utilizados durante a gestação. O uso é comum porque aproximadamente 7% a 23% das gestantes têm depressão. No caso de gestantes, os benefícios de tratar a depressão geralmente superam os riscos. Se a gestante tomar antidepressivos, o recém-nascido pode ter sintomas de abstinência (por exemplo, irritabilidade e tremores) após o parto. Para evitar esses sintomas, é possível que o médico diminua gradativamente a dose do antidepressivo durante o terceiro trimestre e suspenda o medicamento antes do nascimento. Porém, se a mulher tiver sinais significativos de depressão ou se os sintomas piorarem conforme a dose é reduzida, os antidepressivos devem ser continuados. A depressão durante a gestação pode levar à depressão pós-parto, que envolve uma mudança grave do humor e exige tratamento.

A terapia com antineoplásicos deve ser avaliada junto ao obstetra e o oncologista, uma vez que o tratamento contra o câncer na gestação não é contraindicado, mas deve seguir algumas ressalvas, como evitar a quimioterapia no primeiro trimestre e 3 – 4 semanas antes do parto, e realizar revisão das doses de acordo com o peso da paciente.

As gestantes que forem diagnosticadas com HIV durante o pré-natal têm indicação de tratamento com os medicamentos antirretrovirais durante toda gestação e, se orientado pelo médico, também no parto. O tratamento previne a transmissão vertical do HIV para a criança. O recém-nascido deve receber o medicamento antirretroviral (xarope) e ser acompanhado no serviço de saúde. Recomenda-se também a não amamentação, evitando a transmissão do HIV para a criança por meio do leite materno.

Considerações gerais:

  • Sempre consulte seu profissional de saúde sobre o uso de todos os medicamentos prescritos e sem receita (MIPs) durante a gravidez.
  • Caso possua uma doença prévia e/ou faça uso de medicamentos contínuos, informe ao seu obstetra para que ele avalie o tratamento ideal.
  • Evite o uso de antiinflamatórios não esteroidais (AINEs) no terceiro trimestre da gravidez, porque esses medicamentos podem causar o fechamento prematuro de um vaso sanguíneo no feto.
  • Não pare de tomar quaisquer medicamentos prescritos sem primeiro falar com o seu profissional de saúde.
  • Fale com o seu profissional de saúde se tiver dúvidas ou preocupações sobre os medicamentos que está a tomar.

Agências internacionais encorajam a participação ativa da mulher na busca de informações e realização de questionamentos sobre o uso de medicamentos na gestação. Incentivar a participação do paciente em seu cuidado, bem como a formulação desses questionamentos, configura uma forma importante de evitar os erros de medicação.

Equipe da Farmácia


Fonte:

Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis – Ministério da Saúde – http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-sao-hepatites/como-e-prevencao-da-transmissao-vertical-de-hiv-sifilis-e-hepatite. Acesso em 21/09/2020.

Instituto Nacional do Câncer – Ministério da Saúde – https://www.inca.gov.br/. Acesso em 21/09/2020.

Manual MSD – Versão para Profissionais de Saúde: https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%Bade-feminina/uso-de-medicamentos-durante-a-gravidez/uso-de-medicamentos-drogas-durante-a-gravidez. Acesso em 11/09/2020.

Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos: https://www.ismp-brasil.org/site/wp-content/uploads/2020/02/boletim_ismp_dezembro.pdf.  Acesso em 06/09/2020.